O Café Humanista
- Henrique Saraceni
- 29 de abr.
- 3 min de leitura

Era uma tarde preguiçosa de quarta-feira no café mais barulhento do centro. Mesas pequenas, xícaras grandes e opiniões maiores ainda. Foi ali que um filósofo e um advogado cometeram o erro clássico da humanidade: sentar juntos sem um moderador.
O filósofo chegou primeiro, como todo pensador sério — atrasado para o presente e adiantado para o absoluto. Usava uma camisa amarrotada, olhar distante e um caderno cheio de ideias que jamais pagariam boletos.
O advogado apareceu logo depois, impecavelmente alinhado, carregando uma pasta tão organizada que provavelmente possuía subdivisões emocionais.
— Isso aqui é legal — disse o advogado, puxando a cadeira.
O filósofo levantou os olhos lentamente.
— Legal no sentido jurídico ou legal no sentido existencial?
O advogado sorriu com superioridade.
— Legal no sentido… correto. Válido. Regulamentado. Civilizado.
O filósofo tomou um gole de café.
— Ah… então não é legal de verdade.
O advogado franziu a testa.
— Como assim?
— Porque tudo que é realmente interessante começa sendo ilegal, imoral ou, no mínimo, mal compreendido.
O advogado abriu a pasta.
— Isso é um pensamento perigoso.
— Não — respondeu o filósofo — isso é um pensamento cínico.
O advogado suspirou.
— Você usa essa palavra como se fosse virtude.
— Porque é. O cínico não acredita nas ilusões sociais.
— O cínico é só alguém que desistiu de contribuir — rebateu o advogado. — O Direito existe justamente para impedir esse tipo de caos filosófico.
O filósofo inclinou-se para frente.
— Veja só… você se apropriou da palavra legal. Tudo precisa ser legal, regulamentado, protocolado, autenticado em três vias.
— E você se apropriou da palavra cínico para justificar preguiça intelectual.
— Não é preguiça. É lucidez.
— Lucidez não paga IPTU.
— IPTU é uma construção social.
— Dívida ativa também.
O garçom passou, já desacelerando o passo. Era evidente que aquela mesa produziria consequências.
— O problema — continuou o advogado — é que filósofos gostam de questionar tudo, mas nunca resolvem nada.
— Pelo contrário — respondeu o filósofo — nós resolvemos perguntas que vocês nem sabem fazer.
— E deixam os outros resolverem os problemas reais.
— Problema real é achar que contrato resolve angústia existencial.
— Resolve disputa de herança.
— Herança é só briga organizada.
O advogado respirou fundo.
— Você percebe como isso soa?
— Cínico?
— Irritante.
O filósofo sorriu satisfeito.
— Missão cumprida.
O advogado bateu levemente na mesa.
— O mundo precisa de ordem. Regras. Estrutura. Coisas legais.
— O mundo precisa de dúvida, liberdade e gente desconfiando do sistema.
— Sem o sistema você não estaria sentado aqui.
— Sem filósofos você não saberia por que está sentado.
Silêncio.
Os dois beberam café ao mesmo tempo, como duelistas cansados.
Depois de quarenta minutos de debate sem vencedor, o advogado já citara cinco códigos, três princípios constitucionais e uma súmula que ninguém pediu. O filósofo havia mencionado Sócrates, Nietzsche, o vazio ontológico e a possibilidade de que o café nem existisse objetivamente.
O desgaste era inevitável.
O filósofo passou a mão no rosto.
— Cara… sinceramente?
— Finalmente algo objetivo — disse o advogado.
O filósofo suspirou.
— Você é chato pra caralho.
O advogado não hesitou nem meio segundo.
— E você é um maconheiro vagabundo.
Silêncio absoluto.
O garçom deixou a conta na mesa com a serenidade de quem já viu civilizações caírem por menos.
Os dois se olharam.
Depois começaram a rir.
Porque, no fundo, o advogado precisava de alguém para lembrar que nem tudo é legal.
E o filósofo precisava de alguém para lembrar que o mundo continua funcionando mesmo quando ninguém entende o sentido da vida.
Pagaram a conta meio a meio — o único acordo verdadeiramente filosófico e juridicamente válido daquela tarde.
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