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O Café Humanista

29 de abr.
3 min de leitura

Era uma tarde preguiçosa de quarta-feira no café mais barulhento do centro. Mesas pequenas, xícaras grandes e opiniões maiores ainda. Foi ali que um filósofo e um advogado cometeram o erro clássico da humanidade: sentar juntos sem um moderador.


O filósofo chegou primeiro, como todo pensador sério — atrasado para o presente e adiantado para o absoluto. Usava uma camisa amarrotada, olhar distante e um caderno cheio de ideias que jamais pagariam boletos.


O advogado apareceu logo depois, impecavelmente alinhado, carregando uma pasta tão organizada que provavelmente possuía subdivisões emocionais.


— Isso aqui é legal — disse o advogado, puxando a cadeira.


O filósofo levantou os olhos lentamente.


— Legal no sentido jurídico ou legal no sentido existencial?


O advogado sorriu com superioridade.


— Legal no sentido… correto. Válido. Regulamentado. Civilizado.


O filósofo tomou um gole de café.


— Ah… então não é legal de verdade.


O advogado franziu a testa.


— Como assim?


— Porque tudo que é realmente interessante começa sendo ilegal, imoral ou, no mínimo, mal compreendido.


O advogado abriu a pasta.


— Isso é um pensamento perigoso.


— Não — respondeu o filósofo — isso é um pensamento cínico.


O advogado suspirou.


— Você usa essa palavra como se fosse virtude.


— Porque é. O cínico não acredita nas ilusões sociais.


— O cínico é só alguém que desistiu de contribuir — rebateu o advogado. — O Direito existe justamente para impedir esse tipo de caos filosófico.


O filósofo inclinou-se para frente.


— Veja só… você se apropriou da palavra legal. Tudo precisa ser legal, regulamentado, protocolado, autenticado em três vias.


— E você se apropriou da palavra cínico para justificar preguiça intelectual.


— Não é preguiça. É lucidez.


— Lucidez não paga IPTU.


— IPTU é uma construção social.


— Dívida ativa também.


O garçom passou, já desacelerando o passo. Era evidente que aquela mesa produziria consequências.


— O problema — continuou o advogado — é que filósofos gostam de questionar tudo, mas nunca resolvem nada.


— Pelo contrário — respondeu o filósofo — nós resolvemos perguntas que vocês nem sabem fazer.


— E deixam os outros resolverem os problemas reais.


— Problema real é achar que contrato resolve angústia existencial.


— Resolve disputa de herança.


— Herança é só briga organizada.


O advogado respirou fundo.


— Você percebe como isso soa?


— Cínico?


— Irritante.


O filósofo sorriu satisfeito.


— Missão cumprida.


O advogado bateu levemente na mesa.


— O mundo precisa de ordem. Regras. Estrutura. Coisas legais.


— O mundo precisa de dúvida, liberdade e gente desconfiando do sistema.


— Sem o sistema você não estaria sentado aqui.


— Sem filósofos você não saberia por que está sentado.


Silêncio.


Os dois beberam café ao mesmo tempo, como duelistas cansados.


Depois de quarenta minutos de debate sem vencedor, o advogado já citara cinco códigos, três princípios constitucionais e uma súmula que ninguém pediu. O filósofo havia mencionado Sócrates, Nietzsche, o vazio ontológico e a possibilidade de que o café nem existisse objetivamente.


O desgaste era inevitável.


O filósofo passou a mão no rosto.


— Cara… sinceramente?


— Finalmente algo objetivo — disse o advogado.


O filósofo suspirou.


— Você é chato pra caralho.


O advogado não hesitou nem meio segundo.


— E você é um maconheiro vagabundo.


Silêncio absoluto.


O garçom deixou a conta na mesa com a serenidade de quem já viu civilizações caírem por menos.


Os dois se olharam.


Depois começaram a rir.


Porque, no fundo, o advogado precisava de alguém para lembrar que nem tudo é legal.


E o filósofo precisava de alguém para lembrar que o mundo continua funcionando mesmo quando ninguém entende o sentido da vida.


Pagaram a conta meio a meio — o único acordo verdadeiramente filosófico e juridicamente válido daquela tarde.

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